Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.
A declaração do vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, de que o BRICS não constitui uma aliança “anti-americana” e que não aceitará “linguagem de ameaças e manipulação” deve ser compreendida à luz de um contexto mais amplo de tensões comerciais e políticas entre os Estados Unidos e países do Sul Global. As declarações ocorreram poucos dias após o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçar impor tarifas adicionais de 10% aos países do bloco, reiterando um padrão histórico de uso de medidas econômicas como instrumentos de pressão geopolítica.

A partir de análises recentes, constata-se que tais medidas se inscrevem numa lógica imperialista, em que o poder econômico é mobilizado para condicionar decisões políticas e estratégicas de países periféricos ou semiperiféricos. A sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros, acompanhada de acusações políticas e ingerência em temas internos, como a defesa de figuras ligadas a atos golpistas, não apenas ilustra os intentos norte-americanos, mas também desafia princípios fundamentais da soberania, conforme delineados historicamente desde Bodin até as interpretações contemporâneas do direito internacional.
Nesse cenário, o discurso russo busca reposicionar o BRICS como um espaço de articulação multipolar, capaz de negociar em termos de igualdade jurídica e política entre Estados, rejeitando a caracterização de “aliança contra” e adotando a narrativa de “aliança para” pelo desenvolvimento, para a reforma da governança global e para a redução de assimetrias. Contudo, essa postura não elimina o desafio interno do bloco: a necessidade de maior coesão estratégica e ação coordenada, sobretudo diante de ataques que, como o tarifaço de Trump, miram simultaneamente em interesses econômicos e na estabilidade institucional dos países-membros.
O Brasil, em particular, apresenta uma contradição: é alvo direto das medidas coercitivas, mas não tem explorado plenamente o potencial do BRICS como plataforma de resposta coletiva e de criação de mecanismos alternativos, seja na esfera comercial, financeira ou tecnológica, que reduzam a dependência de sistemas controlados pelo Norte Global. A reação brasileira, até agora, tem sido majoritariamente diplomática e voltada à negociação com setores empresariais, sem abrir canais amplos de consulta com trabalhadores e movimentos sociais, atores fundamentais para sustentar uma política externa de soberania ativa.
Do ponto de vista acadêmico e estratégico, a questão transcende o debate sobre tarifas. Trata-se de compreender o entrelaçamento entre poder econômico, ingerência política e construção de alternativas institucionais no sistema internacional. O desafio que se impõe ao Brasil e aos demais membros do BRICS é fortalecer sua atuação como bloco não alinhado, capaz de negociar a partir de uma posição de força coletiva, sem ceder à lógica de fragmentação e pressão bilateral típica da política externa estadunidense. Isso requer, além de posicionamentos retóricos, a implementação de instrumentos concretos de integração econômica, financeira e tecnológica, que materializem o princípio de que “soberania não se negocia” no cotidiano das relações internacionais.