nepbrics@ufba.br

Rua da Paz, s/n - Graça, Salvador - BA

O Lento e Doloroso Nascimento de Uma Nova Ordem Global 

Compartilhe este post

Por Márcio Marques

Introdução

Os temas destacados desta semana são o conflito na Palestina e as eleições argentinas. As notícias listadas ao fim do texto são uma amostra da repercussão internacional destes dois eventos durante a semana.

O lento e doloroso nascimento de uma nova ordem global
Visão ampla do Conselho de Segurança da ONU. Fonte: https://news.un.org/

O lento e doloroso nascimento de uma nova ordem global

O que a guerra da Ucrânia, a escalada bélica na Palestina, a expansão do BRICS e a lenta morte do sistema onusiano têm em comum? Todas são consequências diretas ou indiretas da gradual perda de centralidade do poder político e econômico do Atlântico Norte e a paulatina formação de um sistema multipolar tendo a Ásia como referência. Os recentes acontecimentos na Palestina e as respostas da comunidade internacional à questão são um atestado deste processo de lenta decadência das potências “ocidentais”, suas resistências e consequências imediatas.

Se, por um lado, é bem-sabido que a pressão da OTAN para o avanço de suas alianças ao largo das fronteiras russas foi um dos fatores centrais para a eclosão do conflito entre as duas ex-repúblicas soviéticas, por outro, a manutenção de um regime de opressão e violações cotidianas aos direitos do povo palestino são plano de fundo para os mais recentes eventos de um problema que já se estende por décadas. Em ambos os casos, a presença de um fator é incontornável: o apoio contínuo estadunidense e europeu a uma das partes conflitantes e a sua veemente recusa às tentativas de terceiros em promover negociações ou avanços em direção à minimização das tensões.

Uma vez mais, a política de “nem um passo atrás” põe em risco populações inteiras e traz o espectro nuclear de volta ao debate. Se, durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética buscavam garantir que suas zonas de influência fossem blindadas do avanço político-econômico de seu rival, hoje, as potências norte-atlânticas reeditam estas práticas e firmam posição de força buscando protelar sua paulatina perda de influência frente a uma miríade de novos atores. Enquanto isso, os direitos humanos e humanitário são vilipendiados sistematicamente em Gaza e seus arredores, bem como a temática nuclear ganha incomodamente cada vez mais espaço nos discursos e estratégias militares no conflito do leste europeu.

As notícias desta semana chamam a atenção para a grave e infeliz perda de autoridade da Organização das Nações Unidas para mediar conflitos internacionais e para o avanço de uma dinâmica da prática política internacional em blocos de países com interesses comuns. Temos como exemplo os recentes ataques na mídia e por parte do governo de Israel ao secretário-geral da ONU, António Guterres. Ao fazer uma fala que pedia respeito ao direito humanitário e ponderar criticamente as raízes históricas do conflito ao afirmar que “o ataque do Hamas não se deu no vácuo”, o chefe da burocracia onusiana enfrenta agora reprimendas e mesmo a pressão de Israel para que deixe o cargo.

Iniciativas de países terceiros, não diretamente envolvidos no conflito, também foram alvo de bloqueio durante as votações do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Após um importante esforço brasileiro de elaborar uma redação que não melindrasse diretamente os interesses dos países atualmente no conselho, sobretudo os 5 membros permanentes (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), os Estados Unidos vetaram o texto já em sua fase final de votação, em um expediente diplomático considerado excessivamente rude e comumente utilizado apenas em casos de embate direto entre países antagônicos. Ademais, autoridades estadunidenses continuaram a criticar a posição brasileira ao tentar mediar o conflito.

Analistas parecem unânimes em observar que a contraposição dos EUA ao texto brasileiro não se deu pelo seu conteúdo em si, habilmente trabalhado, mas pelo imperativo de que sejam os Estados Unidos o ator internacional responsável em solucionar a questão. Nota-se aí mais um fato que corrobora com a ideia de que, uma vez em processo de perda de autoridade e legitimidade no cenário global, as potências do Atlântico Norte executam movimentos de força para garantir que seu papel de destaque não seja ameaçado por potências emergentes ou mecanismos multilaterais.

Enquanto as instituições internacionais do pós-Segunda Guerra Mundial não são capazes de lidar com o tema de forma adequada, o massacre de inocentes segue irrefreável e sobem as chances de escalonamento do conflito em uma guerra de proporção regional. Em meio ao acirramento das tensões, a Rússia, membro fundador do BRICS, busca estreitar laços com o Irã e o Egito, além de discutir com a Arábia Saudita os impactos do conflito ao comércio petrolífero. Detalhe: todos os três países compõem o grupo de novos membros plenos admitidos na última cúpula do bloco. O Brasil, por sua vez, fará um novo esforço diplomático no intento de alcançar uma aprovação improvável, diante de tantos interesses conflitantes. Será a quinta resolução tentada sobre o conflito e a segunda capitaneada pelo Brasil, o ator mais hábil em angariar votos até agora.

Notícias relacionadas:

  1. https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/o-massacre-em-gaza-e-a-escolha-dos-eua/
  2. https://www.theguardian.com/commentisfree/2023/sep/20/war-ukraine-new-global-order-power-south-india-china
  3. https://www.aljazeera.com/news/2023/10/26/israels-war-in-gaza-could-spread-beyondmiddle-east-russias-putin
  4. https://tvbrics.com/en/news/russia-and-iran-are-in-the-process-of-building-up-their-partnership/
  5. https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-hamas/83551/brasil-se-solidariza-com-secretario-geral-da-onu-apos-israel-pedir-sua-renuncia
  6. https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/na-tentativa-de-driblar-vetos-brasil-traba lha-em-uma-5a-resolucao-na-onu.shtml
  7. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/russia-e-arabia-saudita-se-reunem-para-discutir -situacao-do-mercado-de-petroleo-em-meio-a-guerra-em-israel/
  8. https://xadrezverbal.com/2023/10/18/sobre-o-veto-dos-eua-a-resolucao-brasileira-no-conselho-de-seguranca-da-onu/

A extrema-direita persiste e avança sobre a Argentina

O resultado da mais recente etapa das eleições argentinas surpreendeu muitos pela capacidade do peronismo de resistir ao avanço da extrema-direita, posicionando Sergio Massa na liderança do pleito presidencial com quase 36,68% dos votos. Contudo, não há espaço para otimismo da esquerda ou dos moderados. Embora a recente vitória tenha sido importante, o apoio da conservadora Patricia Bullrich (3º lugar com 23,83%) ao ultradireitista Javier Milei (2º lugar com 29,98%) indica uma grande chance de vitória para uma plataforma que, dentre outros pontos polêmicos, pede a dolarização da economia argentina, o fim do seu banco central e a extinção dos programas sociais que garantem, já com dificuldades, um mínimo de dignidade para parte importante da população do país.

Agora, as duas campanhas concorrentes tentam alargar seus públicos por movimentos de flexibilização do discurso, ainda que parcial. Por um lado, Sergio Massa faz acenos a eleitores moderados da direita de Bullrich ao se descolar do governo Fernández e prometer medidas econômicas de caráter liberal, como a redução do déficit público e a contenção de gastos estatais. Milei, por outro, após chamar adversários de “escória humana”, agora busca uma aproximação errática com eleitores de centro ao sugerir a presença de políticos não-direitistas em cargos da sua gestão caso sejam “quem mais sabe” sobre temas específicos do governo.

Notícias relacionadas:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/milei-agora-fala-em-incorporar-ate-esqu erda-em-seu-governo-na-argentina.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/10/terceira-colocada-declara-apoio-a-javiermilei-nas-eleicoes-da-argentina.shtml

2ª Mostra CineBRICS 2025

O Centro de Pesquisa BRICS+ da Universidade Federal da...

15ª Cúpula dos BRICS: Uma breve análise sobre os impactos da expansão do grupo

Por Giulia Pinto, Márcio Marques & Maria Paula Couto. Introdução No mês...

Rússia: BRICS Não é Anti-EUA, Mas Não Aceita “Linguagem de Ameaças”

Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.  A declaração do vice-ministro das...

Após Cúpula do Rio, Líderes Confirmam Agenda de Governança Inclusiva e Clima

Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.  A Declaração-Marco da 17ª Cúpula...