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Giro de Notícias BRICS+

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Por Márcio Marques e Angelo Alberti

Nesta reinauguração do Giro de Notícias BRICS+ do Centro de Pesquisa BRICS+ (NEPBRICS-UFBA), optamos por elaborar uma breve recapitulação, em caráter experimental e não exaustivo, de eventos e temas-chave que ganharam destaque no ano de 2026. Como resultado, esta versão inicial do Giro terá excepcionalmente uma estrutura textual mais longa do que o padrão a ser seguido em nossas futuras análises mensais. Compõe esta breve análise quatro sessões que abordam, respectivamente: a Cúpula de Nova Délhi e observações gerais sobre a sai declaração final; as pressões políticas e militares dos EUA sobre membros do BRICS+; a 11ª Reunião Anual do Novo Banco de Desenvolvimento; e a abordagem recente do tema climático do meio ambiente nos documentos oficiais do grupo.

1. CÚPULA DE NOVA DÉLHI

A 18ª Cúpula do BRICS+, realizada entre os dias 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, Índia, esteve marcada por uma expectativa pessimista, devido ao que foi descrito como uma presidência de baixo perfil e uma baixa disposição do país-sede em se contrapor de forma veemente aos interesses de potências ocidentais como os EUA (VASCONCELOS, 2026). A Cúpula, entretanto, foi considerada um sucesso pela presença de todos os líderes nacionais dos países membros, com a exceção do Brasil e dos Emirados Árabes Unidos, pela reaproximação entre China e índia e pela capacidade de produzir uma declaração conjunta de todos os dez países presentes, dotada de 140 parágrafos e abrangendo temas delicados como a guerra contra o Irã e a crise humanitária na Palestina (BATISTA JR., 2026).

O governo indiano salientou que, durante a presidência rotativa do país, mais de 250 reuniões e compromissos de alto nível foram realizados, promovendo três pilares fundamentais: cooperação política e de segurança; cooperação econômica e financeira; intercâmbios culturais e entre os povos. Foram lançadas iniciativas nas áreas de inovação, tecnologia e ecossistema digital; finanças, comércio e apoio às pequenas e médias empresas; saúde e bem-estar; agricultura e meio ambiente; infraestrutura e desenvolvimento urbano; e educação, cultura e sociedade (BRICS, 2026b).

Vladimir Putin, em discurso durante a cúpula, referenciou o BRICS como sendo uma “força motriz” para o fortalecimento do multilateralismo e para a conformação de uma “ordem multipolar mais justa” (CARLOTTI, 2026b). Xi Jinping, também em discursando em Nova Délhi, afirmou que o BRICS devem “congregar o Sul Global” e agir como força positiva e estabilizadora nos assuntos internacionais, salientando que “A lógica segundo a qual ‘a força faz o direito’ não se sustenta e já deveria ter sido abandonada há muito tempo” (XINHUA, 2026), no que pode ser compreendido como uma referência velada às medidas unilaterais econômicas e militares dos Estados Unidos e de seus aliados. Em entrevista às vésperas da cúpula, o Ministro para a Cooperação e das Relações Exteriores da África do Sul, Ronald Lamola, asseverou que os sul-africanos enxergam este momento como uma reafirmação do BRICS como “uma plataforma multilateral de primeira grandeza para o desenvolvimento do Sul Global” e sobre o interesse do país em fazer avançar no grupo temas como a adaptação climática e a extração e beneficiamento de minerais críticos no Sul Global (SA NEWS, 2026).

A Declaração de Nova Délhi, em anuência com suas predecessoras, foi aberta pela reafirmação do “espírito do BRICS” de respeito mútuo, igualdade soberana, solidariedade, democracia, abertura, inclusão, colaboração e consenso. A declaração teve ainda como foco o fortalecimento do multilateralismo; a reforma das instituições internacionais; a paz e a segurança internacional; o crescimento econômico sustentável e inclusivo; e a cooperação cultural e povo-a-povo (BRICS, 2026b). Neste sentido, foi abordada uma variedade de temas caros aos países membros e ao Sul Global como mudança climática; conformação de uma arquitetura financeira BRICS e de pagamentos transfronteiriços; industrialização e infraestrutura digital; transição energética; saúde; segurança alimentar; desenvolvimento espacial; além de abordar os conflitos armados atualmente em curso (BRICS, 2026b).

A partir da análise da declaração de 2026, é possível afirmar que o grupo se apresenta de forma cada vez mais explicita como representante político do Sul Global e busca afirmar a multipolaridade como a nova realidade internacional e advogando pela reforma das estruturas institucionais já existentes, como a ONU e a OMC, como plataforma para a consolidação dessa nova conjuntura. Esse movimento tanto defende a institucionalidade multilateral já existente, quanto demanda por mudanças que visam adequar tal institucionalidade aos legítimos interesses de representatividade e de poder de decisão por parte do Sul Global.

O processo de desdolarização também foi alvo de atenção do documento final. Embora não contenha o termo de forma explícita, a declaração aborda de forma direta a iniciativa de pagamentos transfronteiriços do BRICS e a defesa de pagamentos em moedas locais, tanto em transações intra-BRICS quanto no âmbito do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). O tema é abordado de modo a ampliar a autonomia financeira dos países membros em realizar comércio, investimentos e financiamentos de forma segura e por mecanismos próprios (BRICS, 2026b). Houve ainda outras iniciativas importantes como o lançamento da plataforma BRICS-NBD Knowledge Portal, superando parcialmente o ceticismo depositado na declaração deste ano.

2. PRESSÕES POLÍTICAS E MILITARES ESTADUNIDENSES

Sob o segundo mandato do governo Trump, os EUA têm adotado políticas de contenção da presença de potências vistas como concorrentes no hemisfério americano, num movimento que mina diretamente os esforços de articulação do BRICS em território latino-americano e os interesses de membros como Brasil, China e, em menor proporção, Rússia. Por meio de uma releitura da Doutrina Monroe, sob a formulação do Corolário Trump, os estadunidenses objetivam afastar os latino-americanos sobretudo da China e garantir acesso hegemônico aos suprimentos necessários para a indústria digital das suas Big Techs, tais como energia e minerais críticos (IVES; BATISTA, 2026).

Para alcançar tal feito, a agenda estadunidense vale-se de convites à cooperação e medidas unilaterais coercitivas para promover e atrair governos de direita latino-americanos a darem suporte aos interesses estadunidenses na região, amparados no discurso de defesa hemisférica, de combate ao terrorismo e de repressão à migração “ilegal”. Sob essa justificativa, foram realizados ataques claros à soberania de países próximos, como são exemplos os ataques a embarcações no Caribe, a operação na Venezuela que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e o atual cerco a Cuba. Neste contexto, diversos acordos bilaterais com países da região têm sido firmados, e tomou forma a criação de um grupo que facilitasse a cooperação com esses países: o Escudo das Américas, grupo que possui objetivos nas alas militar, energética e comercial, facilitando e a ingerência direta dos EUA na região (MONTANINI, 2026).

O Corolário Trump, portanto, arraiga-se fortemente em intervenções militares (como ficou evidente na Venezuela) e no extrativismo, garantindo a defesa da agenda empresarial das grandes corporações estadunidenses por meio da agenda de interesses nacionais do país e tem no Brasil um dos únicos contrapontos relevantes nessa empreitada — ao nem legitimar a atuação dos EUA, sob o pretexto da soberania, e nem afastar a China do continente, pelo menos enquanto Lula for presidente — e um possível desgaste nas eleições de meio de mandato que pode conformar-se também como “pedra no sapato” de Trump. As investidas dos EUA não se resumem, contudo, às Américas, mas se estendem em maior ou menor intensidade por todo o globo, afetando membros do BRICS em temas econômicos, comerciais, políticos e militares. Durante os trabalhos que antecederam a Cúpula de líderes, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi demandou que o grupo condenasse ações israelo-estadunidenses como “violações” ao direito internacional e acusaram os Emirados Árabes Unidos de conceder o uso de seu território para a realização de ataques à república islâmica e pediu que os emiradenses reconsiderassem seus atuais laços com Israel (CARLOTTI, 2026a). Por sua vez, Masoud Pezeshkian, presidente do Irã, asseverou,durante encontro à margem da Cúpula, que o Oriente Médio “não precisa de um policial” e que a segurança regional “só pode ser garantida por seus principais atores e pelos países que a compõem” (RFI, 2026). Em sua declaração conjunta, o BRICS expressou preocupação com a escalada de tensões no Oriente Médio, pediu por “máxima contenção” e alertou contra ataques deliberados a infraestrutura civil e nuclear (AL JAZEERA, 2026).

Xi Jinping e Donald Trump voltaram a se encontrar após a última oportunidade, em maio deste ano, na China. Nesta ocasião, o encontro dos chefes de Estado foi em Washington. Ambos discutiram variados temas e chegaram a dizer que essa era uma reunião de colaboração e não de confronto. O objetivo principal era discutir as tarifas impostas pelos EUA e a retaliação chinesa (LEE, 2026).

A reunião tinha caráter de extrema importância, tendo em vista que Xi enviou seu vice-presidente para a Assembleia Geral da ONU, visando tratar exclusivamente da trégua tarifária com Trump, entretanto, nenhum dos lados anunciou trégua ou previsão para suspensão de tarifas. O que houve foi uma prorrogação da trégua comercial por dois meses, até 10 de janeiro, mas nenhum acordo formal foi selado. Ainda assim, outros setores foram pautados, como o de Inteligência Artificial, o da Agricultura e o do Carvão, com os 4 presidentes delegando para o nível ministerial ou deixando para reuniões futuras as discussões que pautarão decisões concretas sobre estes temas (CORREA, 2026).

3. 11ª REUNIÃO ANUAL DO NBD

Sob o tema “Financiamento do Desenvolvimento em uma Era de Revolução Tecnológica”, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) realizou em maio deste ano a sua 11ª Reunião Anual, na Rússia, sob a liderança do Ministro das Finanças da Federação Russa e Governador do NBD para o país, Anton Siluanov. O ministro enfatizou a importância da tecnologia e da inteligência artificial para o NBD — pauta que foi reafirmada durante a Cúpula dos Líderes de setembro. Moscow se posicionou de forma assertiva sobre a necessidade de diversificação do portfólio do banco e do financiamento de projetos em moedas locais (NBD, 2026).

Em seu discurso durante a cerimônia de abertura, Dilma Rousseff, presidenta do NBD, comentou sobre a formulação da nova estratégia do banco para o período 2027-2031 e afirmou que a instituição possui clareza de visão sobre seu futuro próximo: “o Banco será maior, mais verde, mais digital, mais inovador, mais ágil e mais cooperativo, ao mesmo tempo em que permanecerá fundamentado no pragmatismo e orientado para resultados”. A presidenta assegurou que “o financiamento em moedas locais continuará sendo uma prioridade estratégica” e que “o Banco fortalecerá seu papel como plataforma de cooperação entre seus membros” (NBD, 2026).

4. CLIMA E MEIO AMBIENTE

A Declaração de Nova Délhi dedicou espaço significativo para matérias relacionadas ao clima, o meio ambiente e à sustentabilidade, abordando temas como a defesa da plena implementação do Acordo de Paris, a necessidade de fortalecimento do financiamento climático para países em desenvolvimento e da priorização da adaptação climática com foco na resiliência frente a eventos climáticos extremos e na prevenção e resposta desastres. O documento abriu espaço também para a crítica ao protecionismo verde e a medidas unilaterais sob pretextos ambientais, além da demanda já tradicional do grupo à responsabilização dos países desenvolvidos para o fornecimento de recursos e para a transferência de tecnologias que permitam uma mais adequada resposta dos países em desenvolvimento, sobretudo os mais pobres, às suas necessidades de adaptação climática e proteção da biodiversidade. Tópicos relevantes como minerais críticos, segurança alimentar, infraestrutura resiliente, descarbonização e restauração de florestas e sumidouros de carbono, também foram abordados ao longo do texto (BRICS, 2026b).

Contudo, frente a um contexto de crescente instabilidade internacional, o BRICS remarcou em sua declaração final da Cúpula de 2026 a segurança energética como um “alicerce” do desenvolvimento e da segurança nacional, de forma que a produção e o consumo de combustíveis fósseis são ainda vistos como fonte de previsibilidade e estabilidade (MELLO, 2026).

A Declaração Conjunta da 12ª Reunião de Ministros do Meio Ambiente do BRICS, ocorrida em agosto deste ano, como parte dos trabalhos anteriores à Cúpula dos líderes, se demonstra um documento fundamental para uma compreensão mais completa da agenda bricsiana em matéria ambiental e climática, organizando a cooperação do grupo em quatro prioridades: (1) promoção de estilos de vida sustentáveis; (2) florestamento, manejo de incêndios florestais e resiliência a desastres; (3) economia circular; (4) resiliência climática por meio da adaptação centrada nas pessoas, baseada nas comunidades e fundamentada no conhecimento tradicional. O documento reconhece, ademais, a liderança dos países membros do BRICS na governança climática global, bem como seu papel ativo na conservação da biodiversidade e na restauração de ecossistemas vulneráveis, reafirmando o compromisso do grupo em dar continuidade à uma cooperação ambiental pragmática (BRICS, 2026a).

6 REFERÊNCIAS

AL JAZEERA. BRICS nations urge ‘restraint’ in Middle East, smooth flow of global trade. Al Jazeera, 12 Sept. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/9/12/brics-summit-opens-in-new-delhi-amid-wars-glo bal-tensions-tariffs. Acesso em: 2 out. 2026.

BATISTA JR., Paulo Nogueira. BRICS cresce contra hegemonia ocidental, mas sua própria estrutura financeira ainda depende do dólar. Diálogos do Sul Global, 30 set. 2026. Tradução de Isabelle Paiva. Disponível em: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/brics-cresce-contra-hegemonia/. Acesso em: 6 out. 2026.

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CARLOTTI, Tatiana. Chanceler iraniano pede que BRICS condene ‘violações’ de Israel e EUA ao direito internacional. Opera Mundi, São Paulo, 14 maio 2026a. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/brics/chanceler-iraniano-pede-que-brics-condene-violacoes-de-israel-e-eua-ao-direito-internacional/. Acesso em: 1 out. 2026.

CARLOTTI, Tatiana. Putin exalta BRICS como ‘força motriz’ para construção de ordem mundial mais justa. Opera Mundi, São Paulo, 13 set. 2026b. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/brics/putin-exalta-brics-como-forca-motriz-para-construcao-de-ordem-mundial-mais-justa/. Acesso em: 6 out. 2026.

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IVES, Diogo; BATISTA, Thaís. O Corolário Trump: intervencionismo militar na busca por energia e minerais críticos na América Latina. CEBRI-Revista: Brazilian Journal of International Affairs, n. 17, p. 61–74, 2026. Disponível em: https://cebri.org/revista/br/artigo/282/o-corolario-trump. Acesso em: 6 out. 2026

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