Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.
A intensa rodada de contatos diplomáticos conduzida pelo presidente russo Vladimir Putin com líderes da China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e outros países revela uma dinâmica estratégica que transcende o caso específico da guerra na Ucrânia. Trata-se de um movimento que reforça a coesão política e a capacidade de coordenação do BRICS e de seus parceiros próximos frente à pressão externa exercida por Washington, particularmente diante das ameaças de novas sanções e tarifas impostas pelo governo norte-americano.

O contexto imediato dessas conversas é marcado pela tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de condicionar a resolução do conflito ucraniano a um conjunto de concessões territoriais e econômicas, acompanhado da imposição de prazos e penalidades para países que mantenham relações comerciais com Moscou. A reação de Putin, ao buscar alinhamento prévio com Xi Jinping e Narendra Modi — líderes das duas maiores economias emergentes do BRICS —, sinaliza a intenção de projetar uma frente diplomática unificada, que resguarde não apenas os interesses imediatos da Rússia, mas também a autonomia decisória de seus parceiros.
Neste quadro, a soberania do BRICS assume um significado expandido: não se limita ao princípio clássico de independência estatal, mas envolve a capacidade do bloco de atuar como polo articulador de agendas próprias, contrabalançando a centralidade dos Estados Unidos no sistema internacional. A presença de países como China e Índia, que figuram entre os maiores importadores de petróleo russo e que vêm sendo alvo de sanções e tarifas norte-americanas, evidencia que a disputa não é apenas militar ou territorial, mas essencialmente geoeconômica.
O telefonema de Putin a Modi, por exemplo, ganha relevância à luz da recente sobretaxa de 25% imposta por Trump sobre produtos indianos, medida interpretada por Nova Délhi como tentativa de dissuadir sua relação energética com Moscou. A resposta indiana, de manter o diálogo aberto e agradecer pelas atualizações russas, reforça a lógica de um multilateralismo pragmático, no qual a política externa é desenhada para preservar margens de manobra frente às coerções impostas pelo centro hegemônico.
A inclusão de líderes da África do Sul e dos Emirados Árabes Unidos nesse circuito de conversas evidencia ainda a ampliação da diplomacia BRICS para além de seu núcleo original, integrando parceiros estratégicos que compartilham da visão de um sistema multipolar e menos suscetível a medidas unilaterais. Ao tratar de possíveis sedes para um encontro de cúpula com Trump, a menção aos Emirados como local alternativo não apenas contorna barreiras políticas, mas também simboliza a busca de neutralidade estratégica e de fóruns de negociação fora da esfera de influência ocidental direta.
Assim, a sequência de ligações e encontros liderada por Putin não deve ser lida apenas como uma ação defensiva diante de pressões externas, mas como parte de um processo deliberado de consolidação do BRICS como ator soberano coletivo. Ao antecipar alinhamentos internos antes de um encontro com o chefe de Estado norte-americano, Moscou sinaliza para uma possível garantia de que eventuais negociações não resultem em fissuras na coesão do bloco, nessa condição indispensável para que a promessa de multipolaridade se converta em realidade política e econômica efetiva.
Fonte: Putin calls Xi, Modi and other foreign leaders ahead of planned meeting with Trump | Reuters