Por Gabriele Rodrigues e Luna Sarno.
A Declaração-Marco da 17ª Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro em 7 de julho de 2025, posiciona o bloco como liderança no financiamento climático, defendendo a reforma da arquitetura financeira internacional, o fortalecimento do multilateralismo e a implementação efetiva do Acordo de Paris. O texto apoia o “Mapa do Caminho de Baku a Belém”, que visa mobilizar 1,3 trilhão de dólares para países em desenvolvimento, e enfatiza a ampliação de recursos para adaptação, preferencialmente por meio de doações e condições concessionais.

Apesar de avanços políticos, a estratégia permanece ancorada em mecanismos típicos do capitalismo financeiro global, como blended finance, garantias e títulos temáticos, que frequentemente socializam riscos e privatizam ganhos. A coexistência de instrumentos concessionalizados com soluções que “reempacotam” dívida pode ampliar a dependência financeira dos países do Sul. Ademais, a aposta em mercados de carbono e taxonomias harmonizadas, embora promissora, não assegura justiça climática nem evita o greenwashing, se não acompanhada de salvaguardas rigorosas.
A crítica às barreiras comerciais “verdes” unilaterais, como o CBAM europeu, é legítima, mas precisa vir acompanhada de propostas concretas de métricas próprias e rastreabilidade confiável para proteger cadeias produtivas. Nesse cenário, o Brasil poderia atuar de forma mais incisiva: criando linhas de crédito concessionais para adaptação via BNDES; adotando financiamento em moeda local com proteção cambial pública; desenvolvendo uma taxonomia nacional robusta e socialmente vinculante; e liderando no BRICS a criação de padrões alternativos de métricas climáticas.
Essas ações tornariam a posição brasileira mais coerente e efetiva, transformando o discurso em prática e reduzindo a dependência das engrenagens financeiras que historicamente reforçam desigualdades globais sob o rótulo da transição verde.